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quarta-feira, 10 de março de 2010

Caiu das árvores?

João Cabral de Melo Neto em Considerações do poeta em vigílio(1996); e Rachel de Queiroz em Escrever, O Estado de São Paulo (2000), e A inspiração não vem para todos, O Estado de São Paulo (2003); concordam em dizer que a escrita trata-se de um duro processo. Nas palavras de Queiroz (2000): "O processo todo é penoso e dolorido -e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico-, que se assemelha terrivelmente a gestação, que cujo o parto se arrastasse por muitos meses e até anos"; ou nas palavras de Cabral de Melo Neto (1996), no caso da poesia: " (...) a poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada - de fora para dentro".
Ao pensarmos no processo da construção da escrita compreendemos que ela está ancorada em dois fatores, aos quais podemos resgatar: O primeiro é o caráter histórico da escrita, ou seja, onde ela é concebida a duras penas através do desenvolvimento e da valorização da mesma, o que requer a nossa compreensão aos "processos", aos quais a escrita está associada, ou seja, ela não é uma entidade, não nasce do chão, e nem cai de árvores... É um processo construído historicamente por indivíduos, e por seus grupos sociais distintos, um pequeno exemplo: o domínio do ensino a escrita pela igreja católica.
O segundo fator, trata-se do processo de apreensão individual da escrita, ou seja, aquele que o aluno consegue perceber, uma vez que ele está diretamente envolvido no processo de aprendizagem. De qualquer forma, tanto a escrita histórica, quanto a individual, requer um olhar que esteja além da nossa noção de "primeira pessoa". Embora ela aconteça no "eu", ela está além de "nós".
Entretanto, quando falo que a escrita está "além de nós", em nenhum momento faço menção de que ela esteja em um "plano superior", assim, não se trata de "dom divino", ou "celestial", ainda que sejamos tentados a admirar aqueles que concebemos como "mentes privilegiadas", tais como os "Machados da vida". Talvez pelos nossos resquícios medievais, onde o ato de ler e escrever são compreendidos como um dom divino, doado por Deus, apenas aos seus predestinados. Talvez seja uma das origens dos problemas dos escritores brasileiros, mencionados por Cabral de Melo Neto, onde denuncia a leviandade intelectual brasileira, na qual os "escritores" apoiam-se no improviso.
Daí o meu gancho aos problemas da educação a escrita individual formal brasileira, ou seja, a ineficiência ao ato de construção da escrita individual, onde os alunos, ao menos no Estado, encontram-se a mercê do desenvolvimento de seus "talentos individuais". É uma pena que nessa sofrida parcela da população "machadinhos" não sejam descobertos! Ah! Rachel nos avisou: "Deus sempre é parco na concessão de dotes: OS QUE ACUMULAM SÃO SEMPRE", (essa última foi apropriação minha, nada indevida!)
Karina Branzes

Um comentário:

Márcia Fortunato disse...

Karina, belo comentário. Gostei muito de sua reflexão.
Até amanhã, beijo, Márcia.
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